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23rd of October 2018

Mulher



Os bandidos que nos matam não usam armas, usam ternos. E o voto que a gente deu.

Eu conheci o museu Nacional ainda pequena. Levada pela mão da tia. O trio de sempre: zoológico, quinta e museu. Adorava os bichos. Mas dos três? O museu era o que mais me encantava.

Os esqueletos enormes de baleia, dinossauros, povoavam minhas fantasias. Esqueletões! Era fascinante. Eu, já pequena, ia a museus. O Nacional, de longe o meu preferido.

Virei professora. Levei alunos. Em loucas aventuras com zero de conforto. De metrô, de ônibus, de qualquer jeito. Não há facilidades (nem interesse público) nesse processo de levar cultura aos meninos do município.

Não importava. Achava sempre outra louca que se dispusesse a mergulhar na mesma aventura comigo. Os meninos adoravam. Eram pinto no lixo. No final, tudo valia a pena.

Virei mãe. Levava os filhos, os amigos dos filhos. Perdi a conta de quantas vezes. Muitas. Minha mais nova gostava das múmias. Ia direto nelas. Agarrada em mim. Gostava, mas tinha medo. Essas lembranças hoje me encolhem o coração.

O fogo no museu não queimou a mão dada com minha tia, os alunos enlouquecidos com tudo, os olhinhos de encanto e medo da minha filha. Isso ficou e é meu. Mas torrou a possibilidade de voltar. De rever. De reviver. Isso dói.

Me dói como me doeu o sucateamento do desgoverno Pesão com a UERJ sem que a justiça se manifestasse de forma efetiva. Os funcionários tantos meses sem salários sem que nada fosse resolvido.

Como a estação Leopoldina que cai de podre sem manutenção. Como a educação pública que só piora devorando a chance de um futuro decente dos nossos jovens.

O fogo no museu Nacional é mais do que a devastação de um patrimônio mundial. O que já seria bem grave por si só. O fogo é um triste sintoma. Como a febre e as bolinhas na pele para o sarampo.

O Brasil está doente. Uma espécie de septicemia ética generalizada. Não precisa ir longe. Avalie os candidatos à eleição. Como a gente permitiu que essas pessoas chegassem onde chegaram?

Candidatos com um passado negro. Garotinho maltratou horrores os professores na sua gestão. Maus-tratos que continuaram com a eleição de sua senhora. Já foi até preso. Está inelegível. Continua fazendo campanha? Isso pode?

Romário é acusado de usar laranjas, de não pagar dívidas. Uma pessoa que não honra suas dívidas, não administra corretamente suas despesas vai dar conta de um governo? Sério? Ele já foi ótimo jogador. Isso faz dele um governador? A vaga não é para a seleção!

Eduardo Paes foi o prefeito responsável pela ciclovia que despencou matando uma pessoa. Mandou a PM atacar grevistas. Não pagou até hoje os salários dos professores que lutavam por uma educação de qualidade. E ficou por isso mesmo.

A Senhora Justiça mais uma vez se fazendo de surda. Liberando pessoas sem ética para voltarem ao poder. E a gente ainda vai votar neles? Já não basta tudo o que se passou? Ô povo desmemoriado!

A lista de presidenciáveis não melhora. Eu olho e minha vontade é de chorar. O jeito é escolher o menos pior. E tem?

A gente permite que se candidatem. Aí já está o maior erro. Depois reclama. Reclama de que? Reclama por que? Se eles entram é porque foram eleitos. Por nós. Pela nossa omissão. Pela nossa inercia.

A corrupção come solta na nossa cara. A gente tem uma revolta pálida, fraquinha. Nada que chegue a incomodar. Nada que me faça sair da poltrona. Largar meu facebook revolucionário. Ir para a rua exigindo mudanças e honestidade.

Você pega os camaradas com dinheiro na cueca, no apartamento, na Suíça. Dá em nada. Somos uma espécie de corno manso. A gente faz que não vê, que não sabe, que nem desconfia. Vamos reeleger essa corja? Ponham a mão na consciência.

Procure postagens antigas. Fotos de outras eleições. Eles são todos amiguinhos. Eles são coleguinhas de poder. Se anunciam como novidade? São piores que maionese estragada. Cheiram a podre.

Esse incêndio do museu é criminoso, sim. Pela falta de investimento, de cuidado, de prevenção, de manutenção em todos os níveis do prefeito ao presidente.

Ali onde a gente se encantava, agora só cinzas. Resto de um país sem vergonha. Um país de políticos assassinos, criminosos e cada dia mais impunes.

Um museu não queima impunemente. As chamas que comem seu acervo devoram nossa história e nossa esperança. Devoram porque a gente permite. Nossa passividade dá espaço para que esse desleixo aconteça.

O desleixo não é só com a educação, a cultura. É com as nossas vidas. Não temos segurança. Não temos saúde. Morremos como moscas a cada dia, em cada esquina. Não se iludam, os bandidos que nos matam não usam armas, usam ternos. E o voto que a gente deu.

Mônica é carioca, professora e psicóloga clínica. Especialista em atendimento a crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.

Escreva contando sua história. Mande sua sugestão para elbayehmonic@yahoo.com.br

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