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23rd of July 2018

Esporte



Contemplativa, São Petersburgo contrasta com acelerada Moscou

Toda vestida de preto, a não ser pelas sandálias prateadas nos pés, Veronika Topichkanova caminha até o que chama de praia na segunda maior cidade russa.

Numa ilha no meio dos canais que cortam São Petersburgo, uma espécie de Veneza ou Amsterdã nórdica, boias cor-de-rosa em forma de flamingo flutuam num espelho d'água em torno de uma balsa cheia de areia, onde modernos folheiam livros e tomam drinques à espera da noite que quase não cai no verão russo.

Ninguém ali tem pressa, seguindo o exemplo da lua e das estrelas que na atual época do ano abandonam esse lugar quase na latitude do Ártico. As horas intermináveis parecem passar a conta-gotas, no ritmo letárgico da água que escorre pelos canais ao redor.

"É muito relaxante", resume Topichkanova, dona de uma butique na ilhazinha conhecida como Nova Holanda, antigo presídio naval do século 19 transformado em galerias de lojas e bistrôs descolados. "Aproveitamos mais a vida."

Mais do que os moscovitas, ela quer dizer. As diferenças gritantes entre Moscou e São Petersburgo, as duas maiores metrópoles russas que sediam os jogos desta Copa, parecem ficar bem mais nítidas nesses meses agitados pelo torneio.

No imaginário popular dos russos, essas cidades têm alguns dos contrastes que muitos brasileiros veem entre São Paulo e Rio de Janeiro --a primeira é a cidade dos negócios, agressiva e brutal, enquanto a segunda é um refúgio dos artistas, mais calma e hedonista.

"Em Moscou, trabalhamos para ganhar dinheiro o tempo todo, enquanto aqui é possível mergulhar na história", dizia a publicitária Anna Shelykhina, uma moscovita que passava o fim de semana na cidade cheia de canais. "São Petersburgo para mim é como uma velha amiga que você vai visitar, é um lugar para pensar na vida."

O ar contemplativo, de fato, domina a cidade-arquipélago.

São Petersburgo, construída há três séculos no golfo da Finlândia como delírio de grandeza do czar Pedro 1º, tomou como inspiração os canais de Amsterdã, mas o gigante rio Neva e seus tributários formando limites entre os bairros dão um desenho mais orgânico e imprevisível à cidade.

"O tempo anda em círculos em São Petersburgo. É impossível planejar as coisas, porque nada acontece seguindo um plano", diz Ira Demyanets, uma crítica de arte que cresceu na cidade e depois se mudou para Moscou. "É o tipo de lugar onde ninguém tem dinheiro, mas todos têm tempo."

Esse parece ser o maior luxo da cidade que ainda se orgulha da fama de capital cultural da Rússia. No Kuznya, um clube frequentado por "pessoas viciadas em festa", nas palavras de um garçom, os garotos do bar passam longos minutos preparando os drinques, testando cada ingrediente como se elaborassem um perfume.

"Ninguém gosta dos moscovitas aqui. Eles só pensam em dinheiro e são acelerados demais sem motivo nenhum, é o problema das megalópoles", dizia o barman Vanya Kudryavtsev, enquanto fazia um coquetel. "Em São Petersburgo, achamos importante preservar um lado gentil da cidade."

Mas não é só a gentileza que sobrevive. O historiador Vladimir Frolov tenta explicar a atmosfera serena de sua cidade dizendo que na era soviética São Petersburgo foi preservada como espécie de museu a céu aberto, lembrando os russos do passado que eles haviam enterrado com os czares.

"São Petersburgo ficou congelada, era uma cidade de memoriais e monumentos por toda parte", diz Frolov, no café de um museu. "E agora aqui ainda há um espírito que atrai gente que não quer lidar com dinheiro, mas quer um cenário lindo para viver sua vida. Eles são o sangue novo que alimenta nosso cenário cultural."

É um sangue, no caso, que circula por veias subterrâneas. Enquanto palácios barrocos ainda brilham na superfície, uma vibrante cultura underground com laços fortes com outras capitais europeias estremece os porões e os becos de São Petersburgo.

No Gate 31, bar no subsolo de um prédio onde os drinques chegam em tubinhos de ensaio e garotas dançam só de lingerie diante de rapazes vidrados em suas curvas, o lado mais sujo da cidade aflora, contrastando com a assepsia que domina a capital.

"Não encontramos um lugar como esses em Moscou, aqui eu me sinto em Berlim", dizia Reinhard Schmitd, um torcedor alemão hipnotizado pelas dançarinas. "Moscou é muito limpinha, muito Putin, é o sistema. Parece que aqui podemos ser uns 20% mais livres."

​Sasha Tsereteli, que fundou o Klub, uma boate que ocupa um prédio brutalista bem distante do centro de São Petersburgo, também gosta de lembrar Berlim, comparando seu clube underground ao mítico Berghain, templo do techno e do sexo livre da capital alemã.

"São Petersburgo é muito mais pobre que Moscou, mas tem a cultura mais rica", diz o DJ. "Aqui ninguém vem perturbar a gente porque todos já sabem que não temos nada para dar, não se importam com a gente e enquanto isso fecham e multam as festas da capital."

O clima dessas noites de balada em São Petersburgo é mesmo o avesso da repressão. Todos os dias, jovens enchem as calçadas da Lomonosova, uma rua cheia de bares no centro da cidade, tomando seus drinques e inalando gás hilariante de balões coloridos.

No Bad Habits, um dos botecos da via, os garçons passam bem mais tempo inflando essas bexigas, sem dúvida a droga da moda na cidade depois de virar hit entre os adolescentes britânicos anos atrás, do que fazendo bebidas.

"É como dar uma tragada bem forte num baseado", dizia um barman ali, tentando explicar o efeito do gás. Uma garota, com o terceiro balão da noite colado aos lábios, dizia que a droga deixava o mundo todo em câmera lenta --sensação em sintonia total com a calma de São Petersburgo.

Compare as duas cidades

Moscou População: 12,4 milhões Fundação: 1147 (data da primeira menção) Capital: Até 1712 e desde 1918 Temperatura média: -25 a 5ºC (inverno) e 10 a 35ºC (verão) Economia: Centro financeiro e empresarial, responde por 1/5 do PIB russo

São Petersburgo População: 5,3 milhões Fundação: 1703 Capital: 1713-1728 e 1732-1918 Temperatura média: -8 a -3ºC (inverno) e 15 a 23ºC (verão) Economia: Importante centro comercial, seu porto é um dos maiores da Rússia

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