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20th of January 2018

Esporte



Política contra o álcool foi ponto de partida para Islândia chegar à Copa

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Enquanto turistas caminham a passos de pinguim para não escorregar no gelo, tremelicando na sensação térmica de -10° C, um grupo de crianças islandesas corre por um dos campinhos da capital Reykjavik. Perseguem a bola, em busca do gol e do sonho da Copa do Mundo.

Há dois ou três anos, ninguém se interessaria por esse futebol, jogado em uma ilha de 330 mil habitantes em que, durante o inverno, a luz do dia dura pouco mais de quatro horas. A seleção islandesa estava na lanterna europeia e chegou à 131ª posição no ranking da Fifa.

Mas, depois de alcançar as quartas de final da Eurocopa de 2016, a Islândia conseguiu se classificar em novembro para a Copa do Mundo de 2018, superando Croácia, Ucrânia e Turquia. Se tornou o menor país a conseguir a classificação na história. Virou fenômeno futebolístico.

O sucesso está em parte relacionado às políticas públicas de incentivo ao esporte como estratégia para o bem-estar dos jovens, adotadas há quase 20 anos no país. O governo islandês subsidia atividades extracurriculares, como o futebol. As crianças começam a treinar aos quatro ou cinco anos de idade.

Um dos objetivos era combater o consumo de álcool entre os adolescentes. Em 1998, um estudo no país mostrou que 42% dos jovens entre 15 e 16 anos havia ficado bêbado até um mês antes da enquete, um dos índices mais altos da Europa. Hoje, o percentual caiu para 5%.

"O esporte na Islândia é construído na cultura e tradição amadora. A política esportiva faz com que todo mundo se exercite e jogue dentro dos clubes esportivos. Por isso, percebemos que, por meio do esporte, crianças e adolescentes podem ter um desenvolvimento positivo, como ocorreu com a queda do uso do álcool", diz à Folha Vidar Halldorsson, sociólogo da Universidade da Islândia, em Reykjavik.

Futebol na Islândia

Outra medida foi o investimento do governo na modalidade durante a última década. O Estado construiu sete estádios cobertos e ergueu mais de cem campinhos de grama artificial ao lado de escolas, alguns deles com aquecimento no gramado.

Com a renovação da infraestrutura paga pelo Estado, os times islandeses puderam enfrentar um de seus grandes rivais: o clima. Os jogadores já não deixam de treinar devido à neve ou ao gelo, incluindo os jovens, que pagam mensalidade de R$ 230 para participar de um clube.

"Nunca dizemos às crianças que está muito frio para jogar", diz Thorlákur Árnason, treinador de seleções de base na federação nacional. "Temos alta tolerância para a dor", brada -e têm também gramados cobertos, aclimatados para o inverno.

A situação era diferente quando Joey Gudjónsson, 37, que foi jogador da seleção islandesa de 2001 a 2007, era mais jovem. "Nós treinávamos no máximo duas vezes por semana no inverno, e os campos cobertos tinham piso de madeira", diz. "A diferença hoje é imensa."

Gudjónsson treina atualmente o time de sua cidade-natal, Akranes. Esse povoado de 5.000 habitantes, a 40 quilômetros da capital, é tradicionalmente um berço de grandes jogadores do país.

O salto na qualidade do futebol, diz Gudjónsson, também está relacionado à qualidade dos técnicos. Nos anos 2000, o país passou a exigir que todo treinador se profissionalizasse. Há hoje 800 técnicos com o certificado da Uefa (União das Federações Europeias de Futebol) trabalhando no país. Em 2003, não tinha nenhum.

"Antes, os pais dos jogadores vinham ajudar no treino, e não sabiam o que estavam fazendo. Davam uma bola para as crianças e pediam que chutassem", diz Siggy Jonsson, 50, que chegou a jogar no Arsenal, da Inglaterra, e lidera o treinamento dos jovens jogadores do Akranes.

O Akranes tem 850 menores de 19 anos -que treinam às 6h30, antes de ir à escola- e 43 jogadores nos times de nível sênior, servidos por uma equipe composta por 25 técnicos profissionais.

"O sucesso da seleção nacional não é fácil de explicar, existem vários elementos que ocorreram de forma simultânea", diz Halldorsson.

Classificação histórica da Islândia para a fase mata-mata

SUCESSO INTERNACIONAL

O ponto de virada para a seleção da Islândia foi a chegada do técnico sueco Lars Lagerback, em 2011.

Ele tinha experiência, mas teve também um grupo bom na mãos, de jogadores jovens, que cresceram em um cenário mais profissional, graças ao investimento cada vez maior do país em infraestrutura esportiva.

A grande façanha do treinador no comando da equipe nacional foi levar a Islândia às quartas de final da Eurocopa de 2016. Após passar pela Inglaterra nas oitavas, caiu diante da França, que seria a vice-campeã continental.

Aclamado como herói, título que abdicou para dar todos os louros ao grupo, Lagerback deixou o time após a campanha no Europeu. Desde 2013, Heimir Hallgrímsson, braço direito do sueco, com quem dividia todas as funções de dirigir o time, assumiu o comando, participou das eliminatórias, e estará no Mundial da Rússia com os jogadores da Islândia.

Mas as mudanças dos últimos anos, feitas com alguma despretensão, tiveram um efeito indesejado: o desempenho da seleção islandesa na Eurocopa e nas eliminatórias significam de repente que sim, o sonho de erguer o troféu é possível para essa pequena ilhota europeia.

"A pressão dos pais tem aumentado com o sucesso", diz Hakon Sverrisson, 44, que treina a juventude do time Breidablik, na capital.

Na mesma medida, cresceu o empenho dos jovens. "Às vezes precisamos insistir para que eles saiam um pouco, esqueçam o jogo", afirma.

Sverrisson conta que, depois da Eurocopa, chegou a haver alguma expectativa de que o país voltaria a desaparecer dos rankings do futebol, como se a vitória fosse algo acidental. "Antecipavam a nossa queda, mas nós continuamos a crescer e as equipes se tornaram ainda mais profissionais."

A Islândia vai, então, vencer a Copa de 2018? Gudjónsson, treinador do Akranes, ri.

"Seria ingênuo pensar que podemos ganhar", diz, lembrando-se de seus anos na seleção. "Mas antes eu nem ousaria sonhar que participaríamos da Copa do Mundo."

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