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20th of October 2018

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Para onde vai o heavy metal

Os fãs de música contemporânea são criaturas volúveis. Tão rápido quanto nascem, gêneros podem se tornar túmulos; pense no chillwave, witch house, dance punk, electroclash e vaporwave. Mas enquanto novos gêneros são engolidos e zeitgeists criados — do rap do Soundcloud a PC Music e avant-pop — tem um que nunca parece desaparecer: o metal.

Para alguns, a “fase metal” é meramente um rito de passagem adolescente, tipo cabelo feio e viver só de energético e salgadinho. A música consegue capturar toda a agressão reprimida, alienação e perplexidade de passar pela puberdade, e projeta isso de volta pro mundo com vocais guturais, riffs pesados, baixão potente e bumbo duplo. E também vem com o adoçante extra de irritar os pais mais caretas.

Mas para muitos outros, essa é uma viagem sem volta; uma carteirinha vitalícia para o mosh pit.

Mas qual a situação do metal em 2018? Com hip hop e R&B vendendo mais que música com guitarra pela primeira vez nos EUA ano passado, quanta gente ainda está indo para a balada para ouvir letras indecifráveis sobre satanismo e solos de guitarra mais longos que o último disco do Kanye? Para saber, fui até o Bloodstock em Derbyshire, o maior festival de metal independente do Reino Unido.

“Eu era muito discreto em se tratando do metal”, disse Anthony, de Wolverhampton. “Fui um metaleiro secreto por muito tempo. Sou negro, e sentia que talvez não fosse me encaixar na comunidade, mas agora abracei isso totalmente e fui muito bem recebido. Trabalho numa fábrica a semana inteira e o metal é muito terapêutico para mim. O stress da vida em geral some; você entra no mosh pit, bate cabeça e nada mais importa.”

Matthew caminha lentamente pelo festival usando uma máscara de látex de caveira e jaqueta e luvas de couro. Ele parece assustador e ameaçador, meio como um personagem de GTA customizado por um fã do Misfits. Mas por baixo do visual todo há um grande fã do Queen de West Yorkshire, que é metaleiro desde o meio dos anos 80. “A comunidade continua forte porque é formada por pessoas criando seu próprio caminho”, ele diz sobre o espírito imortal do metal. “O que mais gosto nisso é que te dá uma sensação de individualidade, e isso é algo para se orgulhar.”

“O metal é amplo pra caralho”, me diz Reece, de Londres, tomando uma cerveja e descansando antes de entrar no mosh. “Tem algo pra todo mundo, e qualquer pessoa pode fazer parte.”

E ele não está errado. Enquanto os gêneros vêm e vão em toda a música, o metal realmente é o rei dos subgêneros: grindcore, metal gospel, pós-black metal, nu metal, rap metal, metal viking, doom metal, death metal sinfônico... a lista continua. Isso cria várias cepas para os fãs explorarem, mas uma árvore genealógico tão grande não cria uma divisão ou hierarquia na comunidade do metal? “Eu diria que é um mundo muito receptivo”, diz Reece. “Só experimentei hierarquia na comunidade do metal na internet.”

Alice, de Worcestershire, concorda: “Alguns anos atrás eu não gostava de metaleiros porque eles eram muito escrotos online. Se você gostava de alguma banda, aparecia alguém pra falar merda, e isso me boxava. Agora que conheci pessoas na vida real, percebi que elas não combinam com a reputação da internet.” Cameron, de Norwich, também sente um desligamento fundamental entre o mundo online e o real quando se trata de abraçar os gostos mistos das pessoas. “Com o metal, não importa se você está usando calça de moletom... as pessoas acham que você tem que parecer metaleiro para ouvir metal, mas não é o caso”, ele disse. “Se você está num campo cheio de pessoas que estão na mesma vibe, é a melhor sensação. Não importa o rótulo do metal que você curte.”

Logo trombei com um homem vestido de Jesus, que teve uma criação “superprotegida e conservadora” até ter a mente aberta pelo filme Beavis e Butt-Head Detonam a América, especialmente a cena da viagem de cacto com trilha sonora do White Zombie. Mas o que Jesus está ouvindo ultimamente? Quais os hábitos de balada dos metaleiros? “Depende de com quem você está”, ele diz. “Tenho amigos que curtem ficar bem loucos, tenho amigos que só querem ficar bêbados e fazer duelo de caçamba de lixo; e tenho amigos que estão aqui com os filhos pela primeira vez.”

Para quem não sabe, duelo de caçamba de lixo é exatamente o que parece pelo nome: enquanto a noite ia caindo e as massas inebriadas voltavam para a área de camping, dois times se formaram e pegaram duas dessas caçambas de lixo com rodinhas. Uma pessoa sobe na caçamba enquanto seus amigos se preparam para empurrar. Aí alguém grita “Unleash hell!” e os dois times saem correndo empurrando as caçambas uma contra a outra. Se as duas pessoas continuam em cima de sua caçamba depois da batida, o duelo continua até só sobrar um, como uma luta de sumô bêbada, com mais roupas e menos dignidade.

Enquanto as pessoas cuidam de dores de cabeça e hematomas relacionados a montar uma lixeira no dia seguinte, depois que banda de trash metal texana Power Trip conseguiu organizar uma muralha da morte logo depois do café da manhã, falo com os frequentadores sobre para onde vai o metal e quais são as novidades mais interessantes agora. As repostas geralmente vêm com uma pausa, cara de quem está pensando e um “não sei”. Mike, de Londres, me diz que há novas cepas de groove metal aparecendo, mas o sentimento geral é que mesmo com muitas bandas e subgêneros novos para acompanhar, talvez as coisas estejam mais disparatadas, e a próxima explosão de cruzamento de gêneros ainda não está no horizonte. “Não temos bandas novas de metal ficando tão famosas”, me diz June. “Não estamos vendo quem vai substituir os grandes nomes quando eles morrerem. Não acho que você vai ver nenhuma banda nova lotando estádios como o Iron Maiden faz.”

As irmãs Kirsty e Millie também temem que talvez as novas bandas não estejam atingindo o mesmo patamar que suas predecessoras. “Tem bandas novas legais, mas não tantas quanto antes”, diz Kirsty. “Quando eu era adolescente, o nu metal aconteceu, e aquela foi uma plataforma para as pessoas se interessarem por mais metal. Não tem mais nada assim; então não há ponte para coisas mais pesadas. Aquelas bandas foram uma porta pra mim.”

Mas e essa tendência recente de estética metal sendo adotada por rappers e estrelas do pop – há espaço aí para um cruzamento e uma futura onda de nu-rap metal? “Acho que não”, diz Rob. “Acho que é só uma coisa de moda; logo eles vão se entediar e passar para a próxima coisa. Os mundos de Justin Bieber e Gojira [uma banda de metal francesa] provavelmente não vão colidir agora.”

Enquanto o amor pelo metal claramente não vai morrer tão cedo, um tema recorrente entre os entrevistados foi contos de cenas metal desaparecendo em suas cidades. De Hull a Wakefield e Stoke a Suffolk, as pessoas me contaram sobre clubes noturnos e bares de metal fechando, ou cenas sumindo. Me falaram sobre a gentrificação fazendo aluguéis subirem, significando que bares com poucos mas leais seguidores não conseguem sobreviver. Em outros casos, o interesse simplesmente parece se dissipar. As noites de rock e metal estão diminuindo, me diz Kirsty: “Os estudantes entrando agora na universidade não querem noites de metal. Esse tipo de balada está morrendo."

Judas Priest

Antes, entrar no mundo do metal era considerado um ato de rebelião, um desafio às convenções sociais e musicais, mas para muita gente hoje, ele é mais uma fuga dos extremos do mundo real. Assistindo Judas Priest no palco usando roupas brilhantes e tocando riffs com toques glam, parece quase inimaginável que eles já foram considerados uma banda perigosa, e que foram a julgamento por influenciar suicídio adolescente com supostas mensagens subliminares em um de seus discos. Esse é um testemunho de uma longa história de histeria e sensacionalismo que cercou o metal atraiu por anos.

Quanto mais pessoas falavam comigo, mais vezes palavras como “família” e “comunidade” reapareciam; eu podia ter ficar desconfiado dessa resposta estilo seita, se a realidade dessas palavras não fosse tão aparente aqui. Enquanto o metal não é uma utopia superinclusiva – ainda há questões de racismo e machismo em certas áreas do gênero – a sensação de comunidade neste festival do Reino Unido é evidente. Isso ficou claro pelas cinquenta ou mais pessoas com quem falei, mais claro ainda vendo o segundo maior palco do festival, que não era patrocinado por uma cerveja ou marca, mas batizado em homenagem a Sophie Lancaster, uma jovem que foi tragicamente assassinada por parecer uma pessoa que frequentaria esse tipo de festival.

A conclusão que tirei do Bloodstock, sobre a longevidade do metal e sua indestrutibilidade diante do tempo, parece ser que a cena é maior que apenas a música. O metal vai sobreviver a épocas de popularidade e desprezo igualmente porque representa algo que sobrevive a tendências; para cada nova modinha, sempre vai ter novas pessoas se sentindo ostracizadas com isso.

“Para quem sofre de ansiedade severa, esse é um dos lugares mais abençoados para estar”, me diz uma jovem chamada Kiere. “As pessoas aqui são incríveis e muito mente aberta. Não importa quão nervoso você esteja; as pessoas aqui vão te aceitar. Muita gente, como eu, tem problemas de saúde mental, e as pessoas são compreensivas e dispostas a olhar além disso. Ano passado foi meu primeiro ano aqui, e eu estava muito nervosa e ansiosa antes de chegar. Mas logo você percebe que não está sozinho aqui.”

@DanielDylanWray / alexandermclukie.com

Veja mais fotos do Bloodstock abaixo:

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

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