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23rd of October 2018

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Henrique Meirelles: o banqueiro das decisões difíceis que aposta na linguagem jovem

Milionário, banqueiro bem-sucedido, solucionador de problemas e, acima de tudo, sem medo de passar vergonha. É assim que Henrique Meirelles tem se apresentado em sua candidatura à Presidência — que o digam os memes lacradores e os programas eleitorais com cara de vídeo no YouTube que tentam passar jovialidade a uma figura ligada sempre a termos impopulares como “ajuste fiscal” e “corte de gastos”. E que tem a difícil missão de se apresentar como candidato de um governo com péssima avaliação popular.

Desafios não são novidades na vida de Meirelles, um goiano de Anápolis que deixou sua terra aos 19 anos para estudar engenharia na Poli, a Escola Politécnica da USP. A universidade foi um berço de vários políticos, como os ex-governadores de São Paulo Mário Covas e Paulo Maluf, que iniciaram sua rivalidade política nos corredores do Diretório Acadêmico. Mas o jovem Henrique, que havia sido líder estudantil em Goiás e até ajudado a fundar a associação estadual dos estudantes, não estava interessado nisso, pelo menos não naquele tempo — e nem em projetar pontes e prédios. Seu negócio era ganhar dinheiro: da faculdade saiu direto para uma pós em Administração na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); de lá para um emprego no então chamado Banco de Boston.

Meirelles mostrou-se um prodígio em gestão: em apenas quatro anos, já era o vice-presidente das operações do banco aqui no Brasil — na época, voltado a atender clientes de alta renda. Em 1984, antes mesmo de completar 40 anos, já era o presidente do banco no Brasil, e 12 anos depois assumiu o comando mundial da empresa, tornando-se o primeiro não-americano a comandar um banco do país — a essa altura já chamado pelo nome atual, BankBoston. Anos depois, a instituição foi comprada e incorporada pelo Itaú.

A essa altura da vida, Meirelles já pensava de novo — e muito — em política. Em 2001, já milionário, anunciou que estava se aposentando do banco e se filiou ao PSDB em Goiás, depois de ser disputado por partidos como o PFL, o PTB e até o PSB, como registrou matéria de O Globo de 8 de outubro daquele ano. Candidatou-se a deputado federal em 2002 e conseguiu a eleição com sobras, como o deputado goiano mais votado da história: 183.046 votos. E então foi protagonista da notícia que mais surpreendeu o país no momento da euforia petista após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial: foi anunciado como futuro presidente do Banco Central.

Em 2002, o Brasil vivia um momento econômico complicado. A inflação ameaçava voltar, e a liderança de Lula nas pesquisas fez a alegria dos especuladores no mercado financeiro, derrubando a Bolsa de Valores e levando o dólar pela primeira vez acima dos R$ 4. Sem reservas, o governo foi obrigado a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e, no dia 19 de agosto, uma segunda-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu-se separadamente com os quatro melhores colocados nas pesquisas — Lula, José Serra (PSDB), Ciro Gomes (PPS) e Anthony Garotinho (PSB) — para obter deles garantias de que o acordo com a banca seria cumprido. Em junho, Lula já havia soltado a polêmica Carta aos Brasileiros, basicamente prometendo que não ia implantar unilateralmente uma revolução comunista no país.

Nesse contexto, a escolha de um banqueiro tucano para comandar o Banco Central nem deveria ser tão chocante, até para respaldar diante do tal do “mercado” a posição de que não haveria grandes sobressaltos na política econômica — ainda que tenha gerado óbvias reclamações em setores da esquerda. Meirelles renunciou ao cargo de deputado, desfiliou-se do PSDB e comandou o BC nos oito anos do governo Lula. Aliado do primeiro ministro da Fazenda, Antonio Palocci, defendia uma gestão cuidadosa das contas públicas, buscando segurar a inflação a partir de uma taxa de juros relativamente alta. Ouviu durante boa parte do tempo críticas da ala desenvolvimentista, encabeçada pelo vice-presidente José Alencar e pelos ministros do Planejamento, Guido Mantega — que depois ocuparia a presidência do BNDES e em seguida a Fazenda, após a queda de Palocci —, e da Casa Civil, Dilma Rousseff, ungida por Lula como sua sucessora.

Quase sempre Meirelles triunfou, contando sempre com a confiança do presidente para manter a inflação sob controle. Foi derrotado de certa forma em 2008, na crise que derreteu os mercados internacionais, quando o governo optou por ampliar o acesso ao crédito em vez de adotar medidas mais restritivas ao sabor dos liberais, mas o próprio Lula já disse que sua presença no BC ajudou a manter a calma dos investidores e evitar maiores problemas.

Na reta final do governo, Meirelles filiou-se ao PMDB, e ouviu do presidente a sugestão de se candidatar a governador de Goiás, mas a ideia não foi em frente e, após a eleição de Dilma, o ministro deixou o governo. Chegou a filiar-se ao PSD, partido criado pelo então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que não seria “nem de centro, nem de direita e nem de esquerda”, e foi cogitado para uma candidatura à prefeitura paulistana, mas optou por voltar a trabalhar na iniciativa privada. Foi conselheiro de diversas empresas e assumiu cargos de gestão no grupo J&S, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, onde ficou até 2016, quando foi chamado pelo presidente Michel Temer, após o afastamento de Dilma, para comandar um “Dream Team da economia”, à frente do Ministério da Fazenda.

Como se sabe, não deu lá muito certo. Meirelles, porém, insistiu no sonho de ser presidente, voltou ao MDB e decidiu bancar a própria candidatura — literalmente, já que o partido avisou que não colocaria um centavo de sua verba na campanha, priorizando as eleições legislativas. Restou ao ex-ministro defender o legado do governo Temer, tentando convencer o povo das vantagens de medidas como a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que congelou os gastos públicos e a reforma trabalhista.

Meirelles aposta no tempo de TV e nas redes sociais para rejuvenescer seu discurso, apelando para vídeos com edição rápida e GIFs como o “Meirelles geek”. Também tentou colar sua imagem à do ex-presidente Lula, dizendo que não pretende dividir o país entre seus fãs e seus detratores. Aposta na figura de “resolvedor de problemas”, com vídeos em que mostra elogios de Lula e críticas à política econômica de “outros governos anteriores que erraram”, texto ilustrado por imagens de Dilma. No Ibope divulgado na última quarta-feira, aparece em oitavo lugar, com 2% das intenções de voto.

Henrique de Campos MeirellesFormação: Engenheiro Civil pela USP (Universidade de São Paulo)Idade: 73Patrimônio: R$ 377.496.700,70Trajetória (partidos): PSDB-PMDB-PSD-MDBVice: Germano Rigotto (MDB)

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